Publicado em 28/09/18 às 16h47

Porque achamos que a formação por meio de acesso direto e quatro anos de duração é a melhor maneira de preparar intensivistas

Perspectiva

A medicina intensiva surgiu há pelo menos seis décadas, oriunda das necessidades da anestesiologia/cirurgia e da clínica médica, cujas intervenções progrediram em complexidade e geraram um novo tipo de paciente, que precisava de suporte e vigilância muito mais exigentes. Essa nova realidade obrigou que procedimentos operacionais e estruturas de cuidados inéditos tivessem que ser criados para atendê-la. O conhecimento que teve de ser construído em resposta a esse cenário foi inicialmente emprestado ou adaptado, mas com o tempo isso se mostrou insuficiente e a materialização da especialidade passou a exigir o entendimento, cada vez mais vasto e intricado, de aspectos fisiopatológicos, diagnósticos, prognósticos e terapêuticos estabelecidos pelas doenças agudas e graves e suas consequências. O desenvolvimento da medicina intensiva no Brasil percorreu mais ou menos esse mesmo percurso e o reconhecimento da especialidade ocorreu em 2002 e desde então o modelo de formação proposto pela Comissão Nacional de Residência Médica tinha como princípio essa perspectiva histórica: a medicina intensiva complementava a formação de clínicos, cirurgiões e anestesistas. A AMIB, já percebendo as peculiaridades do campo, há vários anos propunha um modelo curricular exclusivo, cujo escopo abrangesse esse conhecimento específico desde o começo da formação.

O que torna imprescindível uma especialidade

Um especialista médico precisa ser reconhecido como essencial não só pelos seus pares, mas também pelos clientes leigos. Esse é o caminho mais coerente e seguro para a valorização profissional e a auto-satisfação. Ninguém cogita, ao precisar extirpar um tumor de dentro da cabeça, em chamar outro que não um neurocirurgião. É esse grau máximo de perícia e exclusividade que define não só a afirmação da especialidade, mas seu valor de mercado. O intensivista precisa se gabaritar, se deseja ser considerado imprescindível, por esse nível de qualificação. E é nesse ponto que reside toda a força do nosso ponto de vista: sem uma formação sólida e diferenciada não se alcança autoridade e, em consequência, não há reconhecimento. O inverso disso é um círculo virtuoso que começa e passa obrigatoriamente por uma formação de qualidade.

A formação ideal é a de quatro anos

Todas as principais especialidades médicas tem uma matriz de competências exclusiva que é completada em um período de no mínimo quatro anos. Não há porque achar que com a medicina intensiva, uma das mais complexas que existem, isso tenha que ser diferente. Uma análise suplementar deve levar em conta que nos países onde a medicina intensiva é uma especialidade forte e reconhecida, como na Austrália/Nova Zelândia, Inglaterra, e Espanha, só para citar alguns, a formação do intensivista é obtida no mínimo em quatro anos.

Porque o acesso direto é melhor

A medicina intensiva tem aspectos na sua atuação que envolvem conhecimentos muito peculiares. As doenças que acometem o paciente de forma aguda e grave, independentemente do campo ao qual pertençam, exibem manifestações distintas e exigem uma atuação singular, que só podem ser satisfeitas por um profissional submetido a um treinamento delineado exclusivamente para atender tais imposições. É opinião muito comum entre os preceptores mais experientes de residência médica em medicina intensiva de que a formação inicial diversa dos residentes fornece habilidades e lacunas distintas que não conseguem, de forma geral, ser equilibradas pelo preparo complementar em medicina intensiva e não nivelam os currículos de maneira a fornecer especialistas equiparados.

O que esperar do novo modelo

O fato de a CNRM ter se decidido pelo acesso direto para medicina intensiva e de ter tomado a iniciativa de procurar a AMIB para construir conjuntamente uma matriz de competências é o vértice da trajetória da medicina intensiva como especialidade no Brasil. A CNRM, por outras vias e em outro passo, por fim reconheceu aquilo que nós, detentores da experiência em formar novos intensivistas, já enxergávamos: a medicina intensiva é uma especialidade exigente que demanda uma formação moldada às suas especificidades. Obviamente, este novo modelo, para se mostrar efetivo, terá que se fazer acompanhar de outras ações, absolutamente necessárias e que já estão sendo planejadas: supervisionar e avaliar de forma objetiva, contínua e eficiente a formação oferecida é tão importante quanto a implantação dessa nova matriz.

Dr. Ciro Leite Mendes
Presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira - Gestão 2018 - 2019

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