Publicado em 08/03/18 às 16h00

Mulheres na Terapia Intensiva – Homenagem da AMIB ao Dia Internacional da Mulher


A história das mulheres na terapia intensiva é pautada por inúmeros desafios, conquistas e possibilidades.

O conceito de alocação de pacientes como conhecemos hoje na Terapia Intensiva nasceu em 1854 por meio de uma mulher, a enfermeira Florence Nightingale, na Guerra da Crimeia. Florence ficou conhecida como a "Dama da Lâmpada", pois separou os pacientes gravemente enfermos em uma área de vigilância contínua, onde circulava durante a noite com uma lamparina para avaliá-los clinicamente.

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, data que celebra importantes conquistas sociais das mulheres, a AMIB convidou 5 membros da Diretoria Ampliada, as doutoras Celi Novaes Vieira, Cintia Johnston, Mariza D'Agostino Dias, Patricia Mello e Renata Pietro para comentarem suas percepções sobre o crescimento da representatividade da mulher nos espaços de decisão e os desafios que ainda enfrentam na terapia intensiva. Confira os depoimentos:

Drª Patricia Mello

Quando descobri minha paixão pela Medicina Intensiva, a especialidade ainda não era formalmente reconhecida em nosso País. Decidir ir para fora do Brasil em busca dessa formação com toda a família foi uma experiência com muitos desafios, mas plena de aprendizado e crescimento. No entanto, o fato de ser mulher nunca foi um problema, nunca sofri preconceito ou porta fechada no exercício da profissão em meu país ou fora daqui por conta de meu gênero.

O verdadeiro desafio foi me deparar com o fato de que a importância da medicina intensiva ainda era subestimada e além de todas as dificuldades inerentes à especialidade enfrentar questionamentos do tipo: precisa mesmo fazer residência de UTI para ser intensivista? Porque você não aproveita que está no exterior e faz também outra especialidade como cardiologia? Ou nefrologia? Então, enfrentar o desconhecimento da maior parte das pessoas com relação a especialidade que escolhi certamente foi bem mais difícil do que enfrentar um treinamento duro, fora do meu pais e com três filhos.

Hoje esse desconhecimento ainda é real mas em proporção bem menor. O papel do intensivista tornou-se inquestionável bem como a necessidade de formação especializada para seu exercício.

Ainda que a especialidade seja majoritariamente masculina, na minha opinião é uma especialidade perfeita para a mulher que traz para a UTI a sua força, mas também a sua sensibilidade e delicadeza essenciais em situações de extrema gravidade aliadas ainda à sua capacidade nata de exercitar várias funções simultâneas necessárias no intensivismo. Ao contrário do que muitos pensam, a carga horaria de trabalho pode ser delineada de forma saudável e se exercida por pessoas com vocação e capacitação profissional adequada o nível de estresse certamente é minimizado e facilmente o lado positivo se sobrepõe de longe as dificuldades da profissão.

A medicina intensiva engrandeceu enormemente minha vida, os ensinamentos sao diários e certamente recebo dela muito além do que posso oferecer. Sem dúvidas, sei que sou uma melhor filha, uma melhor mãe, uma melhor esposa, uma melhor irmã, por ser intensivista! Sem dúvidas sou uma mulher mais sensível e mais forte por ser intensivista.

Drª Patricia Mello é intensivista titulada pela AMIB e SCCM, tendo realizado sua formação em Medicina Intensiva nos Estados Unidos onde morou por 8 anos. Atua como coordenadora de UTI, é supervisora de programa de residência médica em medicina intensiva, professora universitária, e atuante na vida associativa da especialidade tendo sido presidente da comissão de pós-graduação, presidente da comissão de títulos e membro da diretoria executiva da AMIB 2016-2017. Dra Patricia é casada e tem 3 filhos e 2 netas.

 

Drª Renata Pietro

As mulheres representam mais de 87% dos profissionais que prestam cuidados imediatos ao paciente crítico no Brasil. A Enfermagem é uma classe predominantemente feminina e historicamente vinculada ao gênero feminino – a primeira enfermeira reconhecida na história é Florence Nightingale, mundialmente conhecida como a precursora da Terapia Intensiva.

Na área da saúde, formada por equipes multidisciplinares, muitas trabalhadoras de enfermagem ainda enfrentam esse pensamento machista de subordinação – pela falsa associação entre profissões que exigem o ato de cuidar como uma característica feminina.

Além disso, há a diferença de ganhos salariais entre os gêneros, fato real em todo o mercado de trabalho. Portanto, se faz necessário um trabalho de valorização da profissão em caráter de urgência, de conscientização e, principalmente, de ações afirmativas em relação às profissionais.

Drª Renata Pietro já foi presidente do Departamento de Enfermagem da AMIB e hoje coordena a pós-graduação em Enfermagem da Associação. É também presidente do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo – Coren. A enfermeira intensivista é autora do livro Sepse para Enfermeiros, fundadora e membro efetivo da Associação Brasileira de Enfermagem em Terapia Intensiva (ABENTI), pesquisadora e orientadora do Programa de Mestrado Profissional da Pós-Graduação em Ciências da Saúde do IAMSPE-SP e trabalha em diversas instâncias de valorização da especialidade.

Drª Mariza D’Agostino Dias

Na época em que iniciei minha carreira haviam pouquíssimas mulheres, principalmente em papéis de liderança. Quando cursava Medicina na USP, por exemplo, haviam 6 mulheres em uma sala com 80 alunos. Assim que comecei a frequentar o hospital me interessei por Medicina Intensiva, que ainda não era uma especialidade, fiz parte do grupo médico que fundou as Sociedades Científicas da área e fui a primeira presidente da AMIB. Nunca senti que eventuais adversidades que tive no caminho fossem por preconceito de gênero.

Hoje, temos muitas mulheres na medicina, no mercado de trabalho. As salas de aula estão quase equilibradas, com cerca de 40% a 50% de alunas. O que se vê hoje são médicos e médicas trabalhando lado a lado, e o bom profissional continua a ser respeitado como sempre foi. Para além disso, me orgulho em dizer que fui a primeira presidente da AMIB e que continuo e pretendo continuar trabalhando na área na qual me sinto feliz e realizada.”

Drª Mariza D’Agostino Dias, pioneira da Medicina Intensiva, ministra cursos, atende em seu consultório e, na década de 70, fez parte do movimento que liderou a fundação das primeiras entidades médicas em terapia intensiva, culminando na formação da AMIB, em que foi a primeira presidente. É doutora em Ciências Médicas pela USP e, atualmente, além de coordenadora da UTI, é médica supervisora do Grupo Oxigênio Hiperbárico com três Clínicas hiperbáricas no Hospital 9 de Julho de São Paulo.

Drª Celi Novaes Vieira

“A Odontologia é fortemente representada por mulheres, tanto no mercado de trabalho como nas universidades. Em média, 70% dos profissionais que se formam são mulheres.

A história da AMIB mostra o poder da força feminina e pioneirismo. A primeira presidente da Associação foi uma mulher, Dra. Mariza D’Agostino e quem concretiza a Odontologia como Departamento na AMIB foi a Doutora Teresa Márcia Moraes.

As mulheres possuem naturalidade e disciplina para ingressar em novos espaços, e para uma especialidade que valoriza e precisa da equipe multidisciplinar, estas qualidades são sempre bem-vindas.”

Drª Celi Novaes Vieira é presidente do Departamento de Odontologia da AMIB, professora da pós-graduação do curso de especialização em Periodontia, da Universidade de Brasília e coordenadora do Grupo Oris – Periodontia e Odontologia Hospitalar. Luta pela valorização da equipe multidisciplinar nas unidades de terapia intensiva.

Drª Cintia Johsnton

“Diversas figuras femininas historicamente marcaram a evolução dos cuidados em terapia intensiva, em suas possibilidades de atuação (medicina, enfermagem, fisioterapia, psicologia, nutrição, farmácia, odontologia, fonoaudiologia, entre outras).

A Fisioterapia também se origina através de mulheres enfermeiras que, após a I Guerra Mundial, realizavam os cuidados de recuperação dos pacientes feridos em guerra e daqueles acometidos por pólio.

A profissão ganha cada vez mais corpo e abre um vasto leque de áreas e possibilidades de atuação, dentre elas, a Terapia Intensiva. A Terapia Intensiva como área de atuação da Fisioterapia é desempenhada em mais de 80% dos casos por mulheres, especialmente na especialidade que envolve Neonatologia e Pediatria.

A Fisioterapia em Terapia Intensiva é, talvez, uma das áreas de maior exigência de envolvimento de tempo e de qualificação profissional. Isso faz com que o dado da representatividade de mulheres na área seja interessante, visto que muitas mulheres têm mais de um emprego e família constituída (com um ou mais filhos).

Entretanto, existem poucas pesquisas científicas no Brasil concluídas caracterizando o perfil deste profissional e, as concluídas, apresentam apenas dados de Estados específicos do Brasil. Por isso, via AMIBnet, em parceria com a UNIFESP/EPM estamos conduzindo um survey nacional para conhecermos detalhadamente este perfil nacional.

Como mulher, enfrentei muitos desafios e dificuldades quando iniciei a minha atuação em terapia intensiva (há 20 anos, no Rio Grande do Sul. Hoje vivo com meu marido e filha, de seis anos de idade em São Paulo). A participação de mulheres na liderança era pouca/rara e, em fisioterapia, praticamente nula. Assim como várias mulheres, de diversas áreas de atuação, passei por dificuldades para me inserir (não no mercado de trabalho), mas em cargos de liderança - sofri diversos tipos/níveis de assédio. Hoje, tenho muito orgulho de ter sido forte e de nunca ter desistido desta área apaixonante de atuação.

Me sinto realizada e honrada em fazer parte da história da fisioterapia em terapia intensiva brasileira, agradeço sempre à Deus e àqueles que me apoiaram e apoiam em todos os momentos e possibilitaram e ainda possibilitam oportunidades para eu ser alguém capaz de mudar a realidade da atuação da mulher nesta área tão específica do conhecimento/atuação em saúde, a qual faz tanta diferença na recuperação funcional do paciente gravemente enfermo. ”

A fisioterapeuta Profª Drª Cíntia Johnston é presidente do Departamento de Fisioterapia da AMIB, pós-doutora em Pneumologia pela Unifesp e pós-doutoranda em Terapia Intensiva Neonatal pela USP. Foi nomeada para o cargo internacional de coordenadora fundadora do Comitê de Fisioterapia da Sociedade Latino Americana de Terapia Intensiva Pediátrica (SLACIP), é coordena a residência multiprofissional em saúde da criança e do adolescente da Unifesp e ocupa cargos de liderança em diversas instituições públicas e privadas, dentre elas, Editora Atheneu, Hospital São Paulo, APAE e presta consultoria para diversos hospitais e universidades do Brasil e América Latina.


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